terça-feira, 28 de junho de 2011

Método Fônico, um caminho seguro para a alfabetização.

Passei os últimos trinta anos na sala de aula, a maioria destes anos em salas de alfabetização. E sempre utilizando o  som das letras e sua escrita como ponto de partida para o mundo da leitura, sempre utilizando o Método Fônico. 
O que seria o método fônico? 
Segundo Fernando C. Capovilla e Alessandra G. S. Capovilla no seu livro: Alfabetização: Método fônico. O método fônico deve ser introduzido de modo gradual, com complexidade crescente, e à medida que a criança for adquirindo uma boa habilidade de fazer decodificação grafo fonêmica fluente, ou seja, depois que ela tiver recebido instruções explícitas e sistemáticas de consciência fonológica e de correspondências entre grafemas e fonemas.
Para entender porque atividades para desenvolver a consciência fonológica e ensinar correspondência entre grafemas e fonemas são tão importantes para a aquisição da leitura e da escrita alfabéticas, é ·importante examinar o processo de desenvolvimento da competência de leitura e escrita. Maiores detalhes sobre a arquitetura cognitiva envolvida no processamento de leitura podem ser encontrados no fluxograma de A. Capovilla e F. Capovilla (2000b).
De acordo com o modelo de desenvolvimento de leitura de Frith (1985, 1990),sistematicamente explicado e expandido por A. Capovilla e F. Capovilla (2000b) e F. Capovilla e A. Capovilla (2001b), a criança passa por três estágios na aquisição de leitura e escrita:
1) o logográfico, em que ela trata a palavra escrita como se fosse uma representação pictoideográfica e visual do referente;
2) o alfabético em que, com o desenvolvimento da rota fonológica, a criança aprende a fazer decodificação grafo fonêmica;
 3) o ortográfico em que, com o desenvolvimento da rota lexical, a criança aprende a fazer leitura visual direta de palavras de alta freqüência.No estágio logográfico, a criança trata o texto mais ou menos como se fosse um desenho, e não uma escrita alfabética, ou seja, um código de correspondências entre determinadas letras e combinações de letras (isto é, grafemas) e seus respectivos sons da fala (isto é, fonemas).Neste estágio, a leitura consiste no reconhecimento visual global de uma série de palavras comuns que a criança encontra com grande freqüência, tais como seu próprio nome e os nomes de comidas, bebidas e lugares impressos em rótulos e cartazes (por exemplo, Coca-Cola e McDonalds). A criança atenta ao contexto, ao formato e à coloração geral da palavra,como se fosse um desenho, mas não decodifica a palavra segmentando-a nas letras componentes e convertendo-as em som, exceto usualmente a primeira, sendo que não percebe se forem trocadas as letras seguintes, desde que o formato geral da palavra permaneça constante. A escrita também se resume a uma produção visual global, como um desenho, sendo que a escolha e a ordenação das letras ainda não estão sob controle dos sons da fala. A manutenção de tal estratégia de leitura logográfica exigiria muito da memória visual da criança e acabaria levando a uma série crescente de erros grosseiros, como o de troca de palavras (isto é, paralexia) visualmente semelhantes. Para evitar a cristalização de um estilo de leitura ideovisual, os professores devem ensinar e encorajar a criança a progredir para o segundo estágio.
No estágio alfabético, as relações entre o texto e a fala se fortalecem, primeiro em relação à escrita e, depois, também em relação à leitura. Durante a escrita, a seleção das letras e o seu seqüenciamento passam a ficar sob controle dos sons da fala. Do mesmo modo, na leitura, a seleção e o seqüenciamento das sílabas e dos fonemas durante a pronúncia passam a ficar sob controle das sílabas escritas e dos grafemas do texto. Para produzir tais desempenhos, os professores devem expor a criança a instruções de correspondência entre letras e sons. Assim, a criança aprende que a escrita alfabética representa os sons das palavras, isto é, das mesmas palavras que ela usa para pensar e se comunicar com os outros. Aprendendo as relações entre as letras e os sons, a criança começa a fazer escrita por codificação fonografêmica, ou seja, falando consigo mesma e convertendo os sons da fala nas suas letras correspondentes.
Pelo mesmo princípio, mas no sentido inverso, a criança começa a ser capaz de fazer leitura por decodificação grafofonêmica, ou seja, convertendo as letras em seus respectivos sons e, então, repetindo mais rapidamente a seqüência toda de sons para si mesma, para que consiga entender o que está lendo, como se estivesse ouvindo uma outra pessoa falando. Neste estágio, a criança aprende o princípio da decodificação na leitura (isto é, a converter as letras do texto escrito em seus sons correspondentes) e o da codificação na escrita (isto é, a converter os sons da fala ouvidos ou apenas evocados em seus grafemas correspondentes). Se a criança dominar esses princípios,logo ela passará a ser capaz de ler e escrever qualquer palavra, mesmo "palavras inventadas" ou melhor, pseudo palavras. Pseudo palavras consistem em seqüências de letras em combinações que, como são aceitáveis para a ortografia, podem ser pronunciadas, embora careçam de qualquer significado. Quando a criança consegue ler e escrever pseudo palavras, ela está pronta para ler e escrever qualquer palavra nova, e para aprender por si mesma o seu significado, quer por inferência direta a partir do texto, quer com o auxilio de um dicionário.
De início, tal leitura por decodificação grafofonêmica, bem como a escrita correspondente por codificação fonografêmica, são muito lentas. Além disso, a criança tende a cometer erros na leitura e escrita de palavras em que há irregularidade nas relações entre as letras e os sons(como, por exemplo, TÁXI). No entanto, à medida que a criança vai se exercitando na leitura e na escrita, ela vai se tornando cada vez mais rápida e fluente no exercício dessas habilidades,e vai cometendo cada vez menos erros envolvendo as palavras irregulares, desde que as encontre com uma certa freqüência. Com a prática, a criança não apenas deixa de hesitar,como também passa a processar agrupamentos de letras cada vez maiores (correspondentes aos morfemas e logogens, conforme A. Capovilla & F. Capovilla, 2000b), em vez das letras individuais, chegando a processar palavras inteiras se estas forem muito comuns e lendo-as de memória. Neste ponto, a criança está deixando o segundo estágio e entrando no terceiro, o ortográfico.
No estágio ortográfico, a criança aprende que há palavras que envolvem irregularidade nas relações entre os grafemas e os fonemas. Ela aprende que é preciso memorizar essas palavras para que possa fazer uma boa pronúncia na leitura e uma boa produção ortográfica na escrita.Tendo já passado pelo estágio alfabético em que aprendeu as regras de correspondência entre grafemas e fonemas que lhe permitem ler e escrever qualquer palavra nova de maneira automática e rápida, agora, no estágio ortográfico, a criança pode concentrar-se na memorização das exceções às regras (isto é, na ortografia das palavras grafofonemicamente irregulares), na análise morfolmais avançado da sintaxe do texto. Neste ponto, seu sistema de leitura pode ser considerado completo e maduro, e a criança passa a tirar vantagem crescente da freqüência com que as palavras aparecem, conseguindo lê-las com cada vez maior rapidez e fluência, por meio do reconhecimento visual direto (isto é, pela estratégia lexical), e não mais exclusivamente por meio de decodificação (isto é, pela estratégia fonológica).
É importante ressaltar que, ao chegar a este último estágio, só porque a criança passa a ser capaz de fazer uso da estratégia lexical, não significa que ela abandone as estratégias anteriores. Em verdade, as três estratégias de leitura ficam disponíveis o tempo todo à criança,sendo que ela aprende a fazer uso da estratégia que se revelar mais eficaz para um ou outro tipo de material de leitura e escrita. Por exemplo, materiais como algarismos matemáticos, símbolos de notação científica e lógica, e sinais de trânsito tendem a ser lidos pela estratégia logográfica. Já as palavras novas de morfologia desconhecida e as pseudo palavras não podem ser lidas por reconhecimento visual direto, mas precisam ser lidas pela estratégia fonológica. Finalmente, as palavras conhecidas e familiares, ou de composição morfológica evidente, lógica das palavras que lhe permite apreender seu significado, e no processamento cada vez podem ser lidas mais rapidamente pela estratégia lexical de reconhecimento visual direto. A propósito, as palavras com irregularidades grafofonêmicas precisam ser lidas por esta estratégia já que, se fossem lidas pela estratégia fonológica, elas seriam pronunciadas incorretamente (isto é, ocorreria erro de regularização fonológica) e a criança não compreenderia o que está lendo. Por exemplo, a palavra EXÉRCITO precisa ser lida lexicalmente para que possa ser compreendida. Se a criança tentar usar a estratégia de leitura fonológica, ela irá pronunciar o X não como "z", mas sim como "ch", e isto certamente tenderia a comprometer a sua compreensão de leitura.
No método fônico as letras são pronunciadas sempre fazendo a relação fonema grafema.